Política ExternaTime Como Votam7 min de leitura

Brasil no 'Novo BRICS': Protagonismo em Xeque Após a Cúpula de 2026

Com a recente expansão do BRICS e a ausência de lideranças na cúpula de 2026, qual o futuro do Brasil no bloco? Analisamos o papel do país na nova geopolítica.

Introdução: Um Gigante em um Novo Tabuleiro

Em setembro de 2026, os olhos do mundo se voltaram para Nova Delhi, na Índia, palco da mais recente Cúpula de Líderes do BRICS. O encontro não foi apenas mais uma reunião de rotina; ele consolidou uma nova fase para o bloco, que recentemente passou por uma expansão histórica, incorporando novos membros e ampliando significativamente seu peso geopolítico e econômico. Agora composto por onze nações, o grupo representa cerca de 40% do PIB global e uma parcela ainda maior da população mundial.

Contudo, em meio à celebração do fortalecimento do bloco, uma ausência foi particularmente sentida: a de uma liderança brasileira assertiva. Imerso no clímax do período eleitoral, o Brasil enviou uma delegação de perfil mais técnico, deixando um vácuo de protagonismo que foi prontamente ocupado por outras nações. A percepção, como apontado por analistas, é de que o Brasil passou de arquiteto a coadjuvante no palco do BRICS.

Este artigo do Como Votam mergulha nesse cenário complexo. O que é o BRICS hoje? O que a Cúpula de 2026 revelou sobre a posição do Brasil? E, mais importante, quais são as implicações para a política externa brasileira que o próximo governo e o Congresso Nacional terão que enfrentar? Entender essas questões é fundamental para acompanhar os rumos do Brasil no cenário internacional.

O que é o BRICS e Por Que Ele Mudou?

Para compreender o momento atual, é preciso voltar às origens. O acrônimo BRIC foi cunhado em 2001 por um economista para designar as quatro grandes economias emergentes da época: Brasil, Rússia, Índia e China. A ideia inicial era puramente econômica, mas rapidamente evoluiu para uma plataforma de cooperação política. Em 2009, os líderes desses países realizaram sua primeira cúpula, e em 2010, com a entrada da África do Sul (South Africa), o grupo tornou-se oficialmente o BRICS.

O objetivo central do bloco sempre foi promover uma ordem mundial multipolar, servindo como um contrapeso às instituições tradicionalmente dominadas pelo Ocidente, como o G7, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. A criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), também conhecido como "Banco do BRICS", em 2014, foi o passo mais concreto nessa direção, estabelecendo uma alternativa de financiamento para projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável nos países membros e em outras nações em desenvolvimento.

A mudança mais drástica, no entanto, ocorreu a partir de 2024, com a primeira grande onda de expansão. Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos foram incorporados, e notícias recentes indicam a presença de onze membros consolidados em 2026. Essa expansão não apenas aumenta a representatividade demográfica e econômica do grupo, mas também agrega complexidade, reunindo países com sistemas políticos, interesses e alianças externas muito diversas.

O "novo BRICS" é, portanto, um ator global mais poderoso, mas também mais heterogêneo. Ele controla uma parcela significativa da produção mundial de petróleo (com a entrada dos países do Golfo) e representa uma voz coletiva mais forte para o chamado "Sul Global". Para o Brasil, isso significa que o clube do qual foi um dos fundadores e principais idealizadores mudou profundamente, exigindo uma reavaliação de sua estratégia e de seu papel.

A Cúpula de 2026: Ausência Notada e Perda de Protagonismo

O relatório da Cúpula de Nova Delhi, divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores da Índia, celebra o "progresso significativo alcançado sob a presidência da Índia em 2026". De fato, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, aproveitou a oportunidade para posicionar seu país como um líder do Sul Global e principal articulador do bloco expandido.

Enquanto isso, o Brasil teve uma participação discreta. A proximidade da cúpula com o segundo turno das eleições presidenciais fez com que as principais lideranças políticas do país, incluindo o Presidente, estivessem focadas na agenda doméstica. Essa ausência de alto nível contrastou fortemente com cúpulas anteriores, nas quais presidentes brasileiros desempenharam papéis centrais na definição da agenda e na articulação de posições comuns.

Analistas de política externa, como os ouvidos pelo jornal Valor Econômico, foram unânimes em apontar que o Brasil assumiu uma posição de "coadjuvante". O país, que historicamente usou o BRICS como uma plataforma para projetar sua influência global, viu-se à margem das principais discussões. Isso levanta uma questão crucial: essa perda de protagonismo é um fenômeno temporário, causado pelo calendário eleitoral, ou sinaliza uma tendência de longo prazo?

A resposta dependerá das escolhas do próximo governo. A política externa brasileira tem oscilado historicamente entre diferentes prioridades. Alguns governos enfatizam a cooperação Sul-Sul e o fortalecimento de blocos como o BRICS, enquanto outros buscam uma aproximação maior com os Estados Unidos e a Europa. O resultado das eleições de 2026 será determinante para definir qual dessas visões prevalecerá. Essa definição não ocorrerá apenas no Palácio do Planalto; o Congresso Nacional, responsável por ratificar tratados internacionais e aprovar embaixadores, terá um papel fundamental. Acompanhar as votações nominais sobre temas de política externa será essencial para o cidadão que deseja fiscalizar seus representantes.

BRICS vs. Mercosul: Prioridades em Conflito?

Outro ponto de tensão para a diplomacia brasileira é como conciliar os interesses e compromissos dentro do BRICS com as obrigações no Mercosul. Como membro fundador de ambos, o Brasil se encontra em uma encruzilhada estratégica. O Mercosul, formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, é um bloco de integração regional com uma Tarifa Externa Comum (TEC), o que, em tese, impede que seus membros negociem acordos de livre-comércio de forma individual.

Por outro lado, o BRICS, especialmente com a China como principal motor econômico, representa uma imensa oportunidade comercial. A pressão por acordos bilaterais com a China é uma realidade constante. Como equilibrar a lealdade ao projeto de integração sul-americano com as vantagens pragmáticas de um relacionamento mais profundo com os parceiros do BRICS?

Essa dicotomia é um debate constante no Itamaraty e no Congresso Nacional. Setores do agronegócio, por exemplo, veem na China e em outros mercados do BRICS um destino vital para suas exportações, enquanto setores industriais podem temer a competição e defender a proteção do mercado regional via Mercosul. Parlamentares ligados a diferentes bancadas, como a bancada ruralista, frequentemente se posicionam nesses debates, influenciando a direção da política comercial do país.

O desafio para o próximo governo será navegar essa complexidade, buscando sinergias em vez de conflitos. É possível, por exemplo, negociar acordos como bloco (Mercosul-China) ou buscar flexibilizações nas regras do Mercosul que permitam avanços em outras frentes sem implodir o projeto regional. A decisão tomada terá impactos duradouros na economia e na inserção internacional do Brasil.

O Futuro: Qual o Caminho para o Brasil?

A Cúpula de 2026 deixou claro que o BRICS não esperará pelo Brasil. O bloco segue sua trajetória de expansão e consolidação, com ou sem o protagonismo brasileiro. O novo governo que assumirá em 2027 terá a tarefa imediata de redefinir a estratégia do país dentro desse novo arranjo geopolítico.

As opções são claras, mas as escolhas são difíceis:

  1. Retomar o Protagonismo: O Brasil pode buscar ativamente recuperar seu espaço como um dos líderes do bloco, propondo iniciativas, articulando consensos e utilizando sua diplomacia para mediar conflitos internos e projetar uma visão para o futuro do BRICS. Isso exigirá um investimento político e diplomático significativo.
  2. Adotar uma Postura Pragmática: Alternativamente, o país pode adotar uma postura mais reativa e pragmática, focando nos benefícios econômicos da participação no bloco sem necessariamente buscar um papel de liderança política. Seria uma abordagem de "sócio minoritário", com menos custos políticos, mas também com menos influência.
  3. Priorizar Outras Alianças: Uma terceira via seria reduzir a ênfase no BRICS e priorizar outras alianças, seja o Mercosul, seja uma aproximação com a OCDE e parceiros ocidentais.

Qualquer que seja o caminho escolhido, ele terá profundas implicações para o futuro do Brasil. A participação em blocos como o BRICS afeta desde o preço dos produtos na prateleira do supermercado até a capacidade do país de influenciar debates globais sobre temas como mudanças climáticas, segurança e direitos humanos.

Para o cidadão, a mensagem é clara: a política externa não é um assunto distante, decidido a portas fechadas. Ela é moldada por decisões políticas que podem e devem ser acompanhadas. Na plataforma Como Votam, você pode seguir o trabalho dos parlamentares da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, entendendo como eles se posicionam em relação aos acordos e tratados que definirão o lugar do Brasil no mundo. O futuro do protagonismo brasileiro está em jogo, e a sua atenção é parte fundamental desse processo.

Referências

  1. Brasil passa a coadjuvante no Brics, dizem especialistas - https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/09/15/brasil-passa-a-coadjuvante-no-brics-dizem-especialistas.ghtml
  2. BRICS summit 2026: What are the key takeaways? - https://www.aljazeera.com/news/2026/9/13/brics-summit-2026-what-are-the-key-takeaways
  3. Cúpula de Líderes do BRICS - Nova Delhi, 12 e 13 de setembro de 2026 - https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/cupula-de-lideres-do-brics-nova-delhi-12-e-13-de-setembro-de-2026
  4. BRICS New Delhi Declaration: Building for Resilience, Innovation,... - https://www.mea.gov.in/bilateral-documents?dtl/41776

Descubra quem vota como você.

Cinco votações reais, três minutos, parlamentares comparados no registro oficial.

Fazer o quiz

Usamos cookies analíticos para entender como as pessoas usam o Como Votam e melhorar a plataforma. Você pode rejeitá-los a qualquer momento — isso não afeta o uso do quiz. Veja nossa Política de Privacidade.