BRICS em Foco: Os Rumos da Política Externa Brasileira em 2026
Com a expansão do BRICS e as eleições de 2026, a política externa brasileira está em um momento decisivo. Entenda o debate e o que está em jogo.
Enquanto as atenções da maioria dos brasileiros se voltam para debates domésticos como economia, segurança e saúde, um campo de batalha igualmente crucial para o futuro do país se desenrola em um palco global: a política externa. Longe de ser um assunto restrito a diplomatas e acadêmicos, as escolhas que o Brasil faz em suas relações internacionais têm impacto direto no seu bolso, no seu emprego e na sua segurança. Em 2026, com o acirramento das disputas eleitorais e um cenário global em plena transformação, a direção da diplomacia brasileira tornou-se um dos principais pontos de divergência entre os projetos políticos que disputam o poder.
No centro deste debate está o BRICS, o agrupamento que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, e que recentemente passou por uma expansão histórica. A recente Cúpula de Líderes em Nova Delhi, em setembro de 2026, e a iminente presidência brasileira do bloco em 2027 colocam o país em uma posição de destaque e, ao mesmo tempo, diante de uma encruzilhada. Deve o Brasil aprofundar seus laços com as potências emergentes do Sul Global ou realinhar-se com seus parceiros tradicionais do Ocidente? Este artigo do Como Votam mergulha neste tema complexo para explicar o que é o BRICS, por que ele se tornou tão importante e quais são as visões em disputa para o futuro da política externa brasileira.
O que é o BRICS e por que ele importa?
O acrônimo BRIC foi cunhado em 2001 pelo economista Jim O'Neill para se referir a quatro grandes economias emergentes: Brasil, Rússia, Índia e China. A ideia inicial era puramente econômica, destacando o potencial de crescimento desses países. No entanto, a partir de 2009, os líderes dessas nações transformaram o conceito em um agrupamento político formal, com a adição da África do Sul (South Africa) em 2011, consolidando o "S" e formando o BRICS.
Hoje, o BRICS é muito mais do que uma sigla de mercado. É uma plataforma de coordenação política e cooperação econômica que busca dar mais voz aos países em desenvolvimento na governança global. Juntos, os membros originais já representavam uma parcela significativa da população e da economia mundial. Com a recente expansão, que oficializou a entrada de Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, o bloco ganhou ainda mais peso.
Segundo dados recentes, o BRICS ampliado responde por cerca de 40% do PIB global e quase metade da população do planeta. Uma das iniciativas mais concretas do grupo foi a criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como "Banco do BRICS", sediado em Xangai e atualmente presidido pela ex-presidente brasileira Dilma Rousseff. O NDB funciona como uma alternativa ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional (FMI), financiando projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável nos países membros e em outras nações emergentes, sem as condicionalidades políticas frequentemente associadas às instituições de Bretton Woods.
A Cúpula de Nova Delhi e a Expansão do Bloco
A 18ª Cúpula do BRICS, realizada em Nova Delhi em setembro de 2026, foi um marco. Sob o tema "Construindo para Resiliência, Inovação, Cooperação e Segurança", os líderes emitiram a Declaração de Nova Delhi, reafirmando o compromisso com o multilateralismo e a reforma das instituições de governança global, como a ONU e a OMC, que consideram desatualizadas e pouco representativas da nova realidade de poder mundial.
A principal decisão da cúpula foi a consolidação da expansão anunciada no ano anterior. A inclusão de grandes produtores de energia como Arábia Saudita, Irã e Emirados Árabes Unidos, e de países com peso geopolítico regional como Egito e Etiópia, diversifica a composição do bloco e aumenta sua influência, especialmente no Oriente Médio e na África. Para o Brasil, isso significa novas oportunidades de comércio e investimento, mas também desafios diplomáticos, dada a complexidade política e os históricos de conflito envolvendo os novos membros.
O Brasil, sob a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, teve um papel ativo nas negociações, defendendo uma expansão equilibrada e a manutenção da identidade do grupo. A diplomacia brasileira se prepara agora para assumir a presidência rotativa do BRICS em 2027, o que dará ao país a responsabilidade de definir a agenda e conduzir os trabalhos do bloco em um momento crucial de sua história.
Política Externa no Palanque: As Visões para 2026
O crescente protagonismo do BRICS e a reconfiguração geopolítica global transformaram a política externa em um tema quente nas eleições de 2026. As propostas dos candidatos revelam visões de mundo fundamentalmente distintas para o Brasil.
De um lado, o atual governo e seus aliados defendem o aprofundamento da chamada cooperação Sul-Sul e o fortalecimento do BRICS como contraponto à hegemonia dos Estados Unidos e da Europa. Para essa corrente, o Brasil deve atuar como uma potência global autônoma, diversificando suas parcerias e liderando iniciativas com outros países emergentes para reformar a ordem mundial. A participação ativa no BRICS é vista como o principal instrumento para alcançar esse objetivo. Essa visão é frequentemente apoiada por parlamentares de partidos como o PT e o PSOL.
Do outro lado, figuras da oposição argumentam que o Brasil deveria se afastar do BRICS, que acusam de ser um clube de autocracias e um entrave para relações mais proveitosas com as democracias ocidentais. O candidato à presidência Romeu Zema, por exemplo, chegou a propor a saída do Brasil do bloco, argumentando que a aliança com países como Rússia, China e Irã prejudica a imagem e os interesses brasileiros. Essa visão prega um realinhamento estratégico com os Estados Unidos e a Europa, a busca por acordos de livre comércio com economias desenvolvidas e a priorização de parceiros tradicionais. A ratificação de tratados, como um eventual acordo com a OCDE, seria uma prioridade, exigindo aprovação no Congresso Nacional através de votações que podem ser acompanhadas pelo plenário da Câmara e do Senado.
Entre esses dois polos, há uma gama de posições moderadas que defendem um caminho pragmático: manter a participação no BRICS por seus benefícios econômicos, especialmente pela relação com a China, mas sem comprometer os laços históricos e comerciais com o Ocidente. Para os defensores dessa terceira via, a diplomacia brasileira deve ser guiada pelo interesse nacional, e não por alinhamentos ideológicos automáticos.
O Dilema Brasileiro: Pragmatismo Econômico vs. Alinhamento Ideológico
A discussão sobre o BRICS encapsula um dilema histórico da política externa brasileira. Como conciliar os interesses econômicos pragmáticos com os valores e alinhamentos políticos? A China é o exemplo mais claro desse desafio. O gigante asiático é, de longe, o maior parceiro comercial do Brasil, o principal destino das exportações de commodities como soja e minério de ferro. Ignorar a China e o BRICS seria, para muitos analistas, um suicídio econômico.
Ao mesmo tempo, o Brasil compartilha uma longa história e valores democráticos com países do Ocidente. A pressão por um alinhamento com os Estados Unidos em questões de segurança, tecnologia (como na disputa pelo 5G) e direitos humanos é constante. Navegar essa complexa teia de interesses é o grande desafio da diplomacia brasileira.
Essa tensão se reflete no Congresso Nacional, onde projetos de lei e tratados internacionais são debatidos e votados. A aprovação de um acordo comercial com a União Europeia, por exemplo, pode ser influenciada pela percepção de que o Brasil está se aproximando demais da China. Da mesma forma, a ratificação de um projeto de lei de cooperação tecnológica com um membro do BRICS pode enfrentar resistência de parlamentares alinhados a uma visão mais ocidentalista, como a bancada do partido NOVO.
Conclusão: O Seu Voto e o Futuro Global do Brasil
A política externa não é um jogo distante. As decisões tomadas em Brasília, Nova Delhi ou Washington afetam o preço do dólar, a geração de empregos na indústria e no agronegócio, e a capacidade do Brasil de atrair investimentos para áreas essenciais. A escolha do rumo diplomático do país nas eleições de 2026 terá consequências duradouras.
O debate sobre o BRICS é, em essência, um debate sobre que tipo de país o Brasil quer ser no século XXI: uma potência emergente com voz própria em um mundo multipolar ou um parceiro estratégico das nações ocidentais? Não há resposta fácil, e ambos os caminhos apresentam oportunidades e riscos.
Para o cidadão, o mais importante é entender o que está em jogo e cobrar transparência e coerência de seus representantes. Acompanhar como deputados e senadores votam em acordos internacionais, comissões de relações exteriores e projetos que impactam a posição do Brasil no mundo é fundamental. Plataformas como o Como Votam são ferramentas essenciais para fiscalizar e compreender as escolhas que definirão não apenas o futuro da política brasileira, mas também o lugar do Brasil no mundo.